A fome é exclusão. Da terra, da renda, do emprego, do salario, da educação, da economia, da vida e da cidadania. Quando uma pessoa chega a não ter o que comer, e porque tudo o mais já lhe foi negado. É uma espécie de cerceamento moderno ou de exilio. A morte em vida. E exilio da Terra. A alma da fome é política.
A historia do Brasil pode ser contada de vários modos e sob vários ângulos, mas para a maioria ela e a historia da indústria da fome e da miséria. Um modo perverso de dividir o mundo em dois, produzindo um gigantesco apartheid. Nesse campo, fizemos verdadeiros milagres de desenvolvimento. Um dos maiores PIB do mundo abraçado com a pobreza e a miséria mais espantosa. Aqui não houve lugar para o acaso. Tudo foi produzido como obra calculada. Fria.
O resultado esta ai diante do olhos de todos. Uma parte ostensiva, rica, branca, educada, motorizada, dolarizada. Outra parte imensa na sombra, negra, analfabeta, dando duro todos os dias, comendo o pão que o diabo amassou em cruzeiros, reais. Dois mundos no mesmo pais, na mesma cidade, muito próximos pela geografia e infinitamente distantes como experiência de humanidade.
A fome é realidade, o efeito e o sintoma. O ponto de partida e de chegada. A síntese, a ponta do novelo a partir da qual tudo se explica e se resolve. Porque a fome não e episódica nem superficial. Revela fundo o quanto uma pessoa esta sendo excluída de tudo e com que frieza seu drama e ignorado pelos outros.
A realidade cotidiana de 32 milhões de pessoas vivendo na indigência, a população de uma Argentina. Os sem-nada, os sem-comida, habitantes do mundo da fartura, do terceiro exportador mundial de alimentos.
É gente que começa o dia buscando o que comer e que chega a noite sem nada. Pode-se imaginar o quadro porque é o de todo dia para milhões de seres humanos: a fome de comida e de tudo. A essa altura da idade da humanidade e incrível que isso aconteça. Como morrer de fome ao lado de 70 milhões de toneladas de grãos, de 8,5 milhões de hectares de terra, se todos esses brasileiros miseráveis ficariam saciados só com os 20% do desperdício?
Pela fome de 32 milhões se revela a essência humana do próprio pais, aquele que e capaz de negar condição humana para 20% de sua população. A fome e o atestado de miséria absoluta e o grito de alarme que sinaliza o desastre social de um pais, que mostra a cara do Brasil.
Como a miséria e a síntese e o no de um processo, desvendar e atacar a miséria e também um modo de refazer radicalmente o Brasil. E pegar o Brasil pelo umbigo. A negação radical da miséria e um postulado de mudança radical de todas as relações e processos que geram a miséria. É uma interpretação a tudo e a todos, é um passar a limpo a historia, a sociedade, o Estado e a economia. É virar o Brasil pelo avesso. No concreto.
É assustador perceber com que naturalidade fomos virando um pais de miseráveis, com que tranqüilidade fomos produzindo milhões de indigentes. Acabar com essa naturalidade, recuperar o sentido da indignação frente a degradação humana, reabsolutizar a pessoa como centro e eixo da vida e da ação politica e essencial para transformar a luta contra a fome e a miséria num imenso processo de reconstrução do Brasil e de nossa própria dignidade. Por isso acabar com a fome não e só dar comida, e acabar com a miséria não e só gerar emprego; e reconstruir radicalmente toda a sociedade, começando por incorporar agora 32 milhões de seres humanos ao mapa da cidadania.
Assim como a miséria foi sendo construída com a indiferença frente a exclusão e a destruição das pessoas, a negação da miséria começa a se realizar com a pratica cotidiana, ampla e generosa da solidariedade.
A frieza construiu a miséria. Construiu as cidades cheias de gente e de muros que as separam como estranhos que se ignoram e se temem. A solidariedade vai destruir as bases de existência da miséria. É uma ponte entre pessoas.
Por isso o gesto de solidariedade, por menor que seja, é tão importante. É um primeiro movimento no sentido oposto a tudo que se produziu ate agora. Uma mudança de paradigma, de norte, de eixo, o começo de algo totalmente diferente. Como um olhar novo que questiona todas as relações, teorias, propostas, valores e praticas, restabelecendo as bases de uma reconstrução radical de toda a sociedade. Se a exclusão produziu a miséria, a solidariedade destruirá a produção da miséria, produzira a cidadania plena, geral e irrestrita. Democrática.
A luta contra a miséria nos obriga a um confronto com a realidade naquilo que nos parece mais brutal: a pessoa desfigurada pela fome, desesperada pela comida ou por qualquer gesto de reconhecimento de sua existência humana. Se a distancia perpetua a miséria, a solidariedade interrompe o ciclo que a produz e abre possibilidades imensas para se reconstruir a humanidade destruída em 32 milhões de pessoas e negada em outros milhões de pessoas que vivem na pobreza.
Se a indiferença construiu esse apartheid monstruoso, a solidariedade vai destruir suas bases. E essa energia existe com uma força surpreendente entre nos, uma forca capaz de contagiar quem menos espera e de produzir uma nova cultura, a do reencontro.
Quando o movimento da ação da cidadania começou, ninguém esperava que fosse capaz de andar tão rápido, de se expandir com tanta forca, de tocar tantas e tão diferentes pessoas, de encher auditórios e de se espalhar por todos os cantos do pais.
Há uma tremenda forca de mudança no ar, na terra. Há um movimento poderoso, tecendo a novidade através de milhares de gestos de encontro. Há fome de humanidade entre nos, por sorte ou por virtude de um povo que ainda e capaz de sentir, de mudar e de impedir que se consume o desastre, o suicídio social de um pais chamado Brasil.
Artigo publicado no Jornal do Brasil, 12 set. 1993