segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Apreço pelas verdades pouco vistosas

É sinal de uma cultura superior apreciar mais as pequenas verdades pouco vistosas que foram encontradas com método rigoroso, do que os erros benéficos e ofuscantes que derivam de épocas e homens devotados à metafisica e a arte. De inicio, tem-se para com as primeiras o desprezo nos labios, como se nao pudesse subsisir nelas nenhuma igualdade de direitos: tanto quanto estas se apresentam modestas, honestas, singelas, humildes ate em sua aparencia, de igual modo se apresentam aquelas como belas, brilhantes, arrebatadoras, talvez ate mesmo beatificantes. Mas o que foi conseguido com muita luta, certo, duradouro e, por isso mesmo,de importantes consequencias ainda para qualquer conhecimeno futuro, é o que ha de superior; ser a seu favor é viril e denota audacia, honestidade, sobriedade. Pouco a pouco, não so o individuo, mas tambem a humanidade inteira se eleva a essa virilidade, quando finalmente se tiver habituado a conferir o maior valor aos conhecimenos solidos, duradouros e tiver perdido toda crenca na inspiracao e na comunicacao miraculosa das verdades.

image Os veneradores das formas, é verdade, com seu padrao do belo e do sublime, terao boas razoes para zombar desde que o apreço das verdades sem aparencia e do espirito cientifico comeca a dominar: mas é somente porque seus olhos não se abriram ainda para o atrativo da forma mais simples ou porque os homens educados nesse espirito ainda estao longe de se sentir plena e intimamente penetrados por ele, de modo que continuam imitando irrefletidamente velhas formas (e isto bastante mal, como o faz todo aquele que não atribui muito valor a uma coisa). Outrora, o espirito nao era requerido por um estrito modo de pensar e entao sua atividade consistia em imaginar simbolos e formas. Isto mudou: toda aplicação séria ao simbolismo se tornou a caracteristica de uma cultura de nivel inferior. Da mesma maneira que nossas artes se tornam cada vez mais intelectuais, nossos sentidos sempre mais espirituais e como agora, por exemplo, se opina de modo completamente diferente de cem anos atras sobre o que convem realmente aos sentidos, assim também as formas de nossa vida se tornam mais espirituais, aos olhos de tempos antigos talvez mais feias, mas somente porque eles não conseguem ver como o reino da beleza interior, espíritual, se aprofunda e se amplia continuamente, nem até que ponto todos nós hoje podemos apreciar mais a visão inteior que a mais bela composição e a mais imponente construção.

Humano, Demasiado Humano

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A alma da fome é política

image A fome é exclusão. Da terra, da renda, do emprego, do salario, da educação, da economia, da vida e da cidadania. Quando uma pessoa chega a não ter o que comer, e porque tudo o mais já lhe foi negado. É uma espécie de cerceamento moderno ou de exilio. A morte em vida. E exilio da Terra. A alma da fome é política.

A historia do Brasil pode ser contada de vários modos e sob vários ângulos, mas para a maioria ela e a historia da indústria da fome e da miséria. Um modo perverso de dividir o mundo em dois, produzindo um gigantesco apartheid. Nesse campo, fizemos verdadeiros milagres de desenvolvimento. Um dos maiores PIB do mundo abraçado com a pobreza e a miséria mais espantosa. Aqui não houve lugar para o acaso. Tudo foi produzido como obra calculada. Fria.

O resultado esta ai diante do olhos de todos. Uma parte ostensiva, rica, branca, educada, motorizada, dolarizada. Outra parte imensa na sombra, negra, analfabeta, dando duro todos os dias, comendo o pão que o diabo amassou em cruzeiros, reais. Dois mundos no mesmo pais, na mesma cidade, muito próximos pela geografia e infinitamente distantes como experiência de humanidade.

A fome é realidade, o efeito e o sintoma. O ponto de partida e de chegada. A síntese, a ponta do novelo a partir da qual tudo se explica e se resolve. Porque a fome não e episódica nem superficial. Revela fundo o quanto uma pessoa esta sendo excluída de tudo e com que frieza seu drama e ignorado pelos outros.

A realidade cotidiana de 32 milhões de pessoas vivendo na indigência, a população de uma Argentina. Os sem-nada, os sem-comida, habitantes do mundo da fartura, do terceiro exportador mundial de alimentos.

É gente que começa o dia buscando o que comer e que chega a noite sem nada. Pode-se imaginar o quadro porque é o de todo dia para milhões de seres humanos: a fome de comida e de tudo. A essa altura da idade da humanidade e incrível que isso aconteça. Como morrer de fome ao lado de 70 milhões de toneladas de grãos, de 8,5 milhões de hectares de terra, se todos esses brasileiros miseráveis ficariam saciados só com os 20% do desperdício?

Pela fome de 32 milhões se revela a essência humana do próprio pais, aquele que e capaz de negar condição humana para 20% de sua população. A fome e o atestado de miséria absoluta e o grito de alarme que sinaliza o desastre social de um pais, que mostra a cara do Brasil.

Como a miséria e a síntese e o no de um processo, desvendar e atacar a miséria e também um modo de refazer radicalmente o Brasil. E pegar o Brasil pelo umbigo. A negação radical da miséria e um postulado de mudança radical de todas as relações e processos que geram a miséria. É uma interpretação a tudo e a todos, é um passar a limpo a historia, a sociedade, o Estado e a economia. É virar o Brasil pelo avesso. No concreto.

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É assustador perceber com que naturalidade fomos virando um pais de miseráveis, com que tranqüilidade fomos produzindo milhões de indigentes. Acabar com essa naturalidade, recuperar o sentido da indignação frente a degradação humana, reabsolutizar a pessoa como centro e eixo da vida e da ação politica e essencial para transformar a luta contra a fome e a miséria num imenso processo de reconstrução do Brasil e de nossa própria dignidade. Por isso acabar com a fome não e só dar comida, e acabar com a miséria não e só gerar emprego; e reconstruir radicalmente toda a sociedade, começando por incorporar agora 32 milhões de seres humanos ao mapa da cidadania.

Assim como a miséria foi sendo construída com a indiferença frente a exclusão e a destruição das pessoas, a negação da miséria começa a se realizar com a pratica cotidiana, ampla e generosa da solidariedade.

A frieza construiu a miséria. Construiu as cidades cheias de gente e de muros que as separam como estranhos que se ignoram e se temem. A solidariedade vai destruir as bases de existência da miséria. É uma ponte entre pessoas.

Por isso o gesto de solidariedade, por menor que seja, é tão importante. É um primeiro movimento no sentido oposto a tudo que se produziu ate agora. Uma mudança de paradigma, de norte, de eixo, o começo de algo totalmente diferente. Como um olhar novo que questiona todas as relações, teorias, propostas, valores e praticas, restabelecendo as bases de uma reconstrução radical de toda a sociedade. Se a exclusão produziu a miséria, a solidariedade destruirá a produção da miséria, produzira a cidadania plena, geral e irrestrita. Democrática.

A luta contra a miséria nos obriga a um confronto com a realidade naquilo que nos parece mais brutal: a pessoa desfigurada pela fome, desesperada pela comida ou por qualquer gesto de reconhecimento de sua existência humana. Se a distancia perpetua a miséria, a solidariedade interrompe o ciclo que a produz e abre possibilidades imensas para se reconstruir a humanidade destruída em 32 milhões de pessoas e negada em outros milhões de pessoas que vivem na pobreza.

Se a indiferença construiu esse apartheid monstruoso, a solidariedade vai destruir suas bases. E essa energia existe com uma força surpreendente entre nos, uma forca capaz de contagiar quem menos espera e de produzir uma nova cultura, a do reencontro.

Quando o movimento da ação da cidadania começou, ninguém esperava que fosse capaz de andar tão rápido, de se expandir com tanta forca, de tocar tantas e tão diferentes pessoas, de encher auditórios e de se espalhar por todos os cantos do pais.

Há uma tremenda forca de mudança no ar, na terra. Há um movimento poderoso, tecendo a novidade através de milhares de gestos de encontro. Há fome de humanidade entre nos, por sorte ou por virtude de um povo que ainda e capaz de sentir, de mudar e de impedir que se consume o desastre, o suicídio social de um pais chamado Brasil.

Artigo publicado no Jornal do Brasil, 12 set. 1993

Ética e cidadania

Herbert de Souza

Carla Rodrigues

sábado, 17 de outubro de 2009

Sentido da vida, das riquezas e o julgamento de um homem

  

folhaTem um sentido a minha vida? A vida de um homem tem sentido? Posso respondera tais perguntas se tenho espirito religioso. Mas, “fazer tais perguntas tem sentido?” Respondo: “Aquele que considera sua vida e ados outros sem qualquer sentido é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver”.

De acordo com uma única regra determino o autentico valor de um homem: em que grau e com que finalidade o homem se libertou de seu Eu?

Todas as riquezas do mundo, ainda mesmo nas mãos de um homem inteiramente devotado à idéia do progresso, jamais trarão o menor desenvolvimento moral para a humanidade. Somente seres humanos excepcionais e irrepreensíveis suscitam idéias generosas e ações elevadas. Mas o dinheiro polui tudo e degrada sem piedade a pessoa humana. Não posso comparar a generosidade de um Moisés, de um Jesus ou de um Gandhi com a generosidade de uma Fundação Carnegie qualquer.

Como vejo o mundo

Albert Einstein (1879-1955)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Mudanças climáticas e pobreza

Esse post é parte do movimento Blog Action Day que nesse ano aborda as mudanças climáticas que estão afetando muitos e afetarão ainda mais num futuro próximo. A conscientização a respeito desse assunto tão importante deve chegar a todos e as discussões e ações devem ser realizadas o quanto antes

Relação clima pobreza

image Existe uma cruel ligação de mão dupla que vincula as mudanças climáticas ao subdesenvolvimento. As consequências do aumento do efeito estufa — aumento da temperatura, aumento do nível dos mares, progressivo descongelamento de geleiras, crescimento de desertos e de zonas áridas, tornam efetivamente os pobres cada vez mais pobres, ao mesmo tempo que o subdesenvolvimento amplia e agrava muitos problemas ambientais, inclusive aqueles que têm influência sobre o clima.

A pobreza e o risco climático são os dois obstáculos principais contra o objetivo de um mundo diferente e melhor. A condição de absoluta miséria em que vivem milhões de homens e mulheres é uma realidade inaceitável para as pessoas de boa vontade e é também um terreno fértil para terríveis fenômenos como o terrorismo e a contraposição entre civilizações e culturas. Quanto às diferenças climáticas, essas representam uma ameaça que, dentro de um século, poderia tornar literalmente impossível a vida sobre muitas regiões da terra.

 

Estudos confirmam problema

Segundo um estudo publicado pela revista "Environmental Research Letters" a mudança climática aumentará os preços dos alimentos e isso afetará sobretudo as populações urbanas dos países em desenvolvimento.

O documento explicou que as nações mais afetadas pela situação serão Bangladesh, México e Zâmbia.

Cientistas da Universidade Purdue, Indiana, chegaram a essa conclusão após examinar as consequências de eventos meteorológicos adversos e potenciais como as ondas de calor, as secas e as chuvas em 16 países em desenvolvimento.

"O clima extremo afeta a produtividade agrícola e pode aumentar os preços dos alimentos como os grãos que são importantes para as famílias dos países em desenvolvimento", disse Noah Diffenbaugh, professor do Centro de Pesquisas sobre a Mudança Climática da Universidade Purdue.

Os estudos demonstraram que o aquecimento global provavelmente aumentará a frequência e intensidade das ondas de calor, as secas e as inundações em muitas zonas.

"Por isso é importante entender que grupos econômicos e países sofrerão mudanças na taxa de pobreza a fim de tomar decisões baseadas em informações", acrescentou.

No estudo, os cientistas utilizaram dados do século XX e projeções para o século XXI para determinar futuros extremos climáticos, seu impacto na produção de grão e as consequências gerais nos países mais pobres.

Segundo Thomas Hertel, professor de economia agrícola e um dos autores do estudo, embora só contribuam modestamente na taxa de pobreza, os trabalhadores urbanos são, ao mesmo tempo, os mais vulneráveis às mudanças na produção de grãos.

"O alimento é o maior gasto para os pobres e embora os que trabalhem na agricultura talvez se beneficiem do maior preço dos grãos, os indigentes urbanos só receberiam os efeitos negativos", disse.

Segundo Hertel, essa conclusão é importante à luz de projeções das Nações Unidas que indicam que se manterá a mudança de população de zonas rurais às cidades de virtualmente todos os países em desenvolvimento.

O estudo indica que Bangladesh, México e Zâmbia estão entre os países analisados que mostraram um maior percentual de população que entrará na pobreza como resultado das secas extremas.

Fonte

Noticias Terra

Legambiente

 
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